Doenças do Aleijadinho

Por ocasião da Semana do Aleijadinho, promovida em novembro de 1964 pelo Governo do Estado de Minas Gerais, em comemoração ao sesquicentenário de sua morte, foi organizada uma mesa-redonda na Associação Médica de Belo Horizonte para debater o tema do diagnóstico das moléstias que vitimaram o genial escultor, com ênfase especial na área da dermatologia.

Nesse simpósio participaram, além de inúmeros colaboradores, os ilustres médicos: Prof. René Laclette, antigo estudioso do problema, Prof. Alípio Correia Neto, Dr. Geraldo Guimarães da Gama, Dr. Pedro Salles e Dr. Tancredo A. Furtado.

Desse encontro foi publicada uma série de quatro artigos, em fevereiro de 1965, sob o título: “Doenças do Aleijadinho: tentativas de um diagnóstico retrospectivo.”

Os estudos basearam-se fundamentalmente na biografia de Bretas e nos breves depoimentos de viajantes estrangeiros que visitaram a província na época ou que, logo depois, deixaram comentários sobre as doenças do escultor.

Apenas dois depoimentos são contemporâneos ao escultor, que faleceu em 1814. O primeiro é do geólogo alemão Barão Wilhelm Eschwege, que visitou Congonhas em 1811:

“O principal escultor que aqui se salientou é um homem aleijado, com as mãos paralíticas; ele se faz amarrar o cinzel e executa, desta maneira, os mais artísticos trabalhos…”

Outro é do viajante inglês John Luccock, que esteve no Brasil entre 1808 e 1818. Ao fazer uma apreciação sobre as estátuas dos profetas, em Congonhas do Campo, escreve nas Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil:

“Dizem ser obra de um artista que não tinha mãos, sendo o martelo e o cinzel fixados em seu pulso por um ajudante, e, dessa maneira, executava os mais delicados trabalhos.”

Todas as demais referências são posteriores à morte do Aleijadinho. Saint-Hilaire, que esteve em Minas em 1816, registrou:

“… ele perdeu os dedos e fazia os ferros na extremidade do antebraço.”

O alemão Friedrich von Weech, em 1831, afirmou:

“As estátuas dos doze apóstolos (?), em tamanho natural e em pedra-sabão, foram esculpidas por um homem sem mãos…”

Francis de Castelnau, em sua obra Dans les parties centrales de l’Amérique du Sud (1850–1857), em 15 volumes, escreveu brevemente:

“A porta da igreja principal de Sabará foi executada por um homem sem mãos.”

O autor Richard Francis Burton, em Viagens aos planaltos do Brasil (1868), menciona, de passagem, o defeito físico do artista ao se referir à Igreja de São Francisco de Assis de São João del-Rei:

“A escultura tem o aspecto de trabalho em madeira, com difíceis altos-relevos, fruto da habilidade de mãos (hibernicé) – de um homem que não as tinha, cujas obras encontraremos espalhadas por toda essa região da província. É conhecido por Aleijado ou Aleijadinho; alguns chamam-no Inacinho, outros, Antônio Francisco. Seu trabalho se fazia com ferramentas ajustadas por um ajudante aos cotos que representavam os braços.”

Ponderações sobre as Doenças do Aleijadinho

As doenças do Aleijadinho sempre foram objeto de especulação e fascínio por parte de estudiosos e escritores interessados em sua obra, especialmente a partir da Semana de Arte Moderna de 1922. Desde então, as conjecturas sobre seu estado de saúde não cessaram.

Que Aleijadinho apresentava alguma deficiência física nos últimos anos de vida, a ponto de precisar ser carregado por escravizados para se locomover, já não há dúvidas. Uma prova concreta disso é uma nota registrada no livro da Irmandade do Carmo, em Ouro Preto, referente a uma despesa com seu transporte até a capela, onde prestaria um parecer pericial.

No entanto, o ponto mais intrigante não é sua limitação para caminhar, mas sim o fato, constantemente repetido em documentos e relatos, de que o artista “atava os ferros às mãos para poder obrar”.

Como escultor, posso afirmar com total convicção: é impossível esculpir sem o uso pleno e preciso das mãos. Somente para se esculpir uma face humana, por exemplo, é necessário trocar de ferramenta várias vezes. Sem a habilidade manual completa, essa tarefa se torna praticamente inviável.

Portanto, é razoável concluir que Aleijadinho possuía plena destreza manual e domínio técnico para o uso das ferramentas de escultura. A recorrente ideia de que ele esculpia com instrumentos amarrados aos punhos parece nascer mais da lenda do que da realidade.

Vale destacar que os viajantes estrangeiros que comentaram sobre Aleijadinho o fizeram, na maioria das vezes, com base em relatos de terceiros. Nenhum deles procurou verificar diretamente a veracidade das informações nem se preocupou em conhecer melhor o artista. Mesmo aqueles que estiveram em Minas Gerais durante sua vida não o procuraram para obter dados sólidos sobre sua condição ou sua obra.

Há, ainda, uma hipótese plausível: Aleijadinho pode ter sido portador de porfiria cutânea tarda — uma doença que torna a pele extremamente sensível à luz solar, podendo causar lesões. Se ele protegia as mãos com bandagens ou luvas para evitar exposição ao sol, é possível que tais proteções tenham sido interpretadas por observadores como “ferramentas amarradas”, alimentando a construção do mito.

A análise mais coerente e plausível é que Aleijadinho, mesmo em idade avançada, estava em condições físicas e mentais suficientemente boas para continuar trabalhando. Ele recebeu importantes encomendas, como as obras do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, que demandaram anos de dedicação. Nenhuma irmandade ou contratante confiaria tamanha responsabilidade a alguém sem capacidade de cumpri-la.

Assim, tudo indica que o genial artista gozava de saúde razoável — com exceção da possível porfiria ou de alguma limitação congênita —, mas nada que o impedisse de exercer com excelência sua arte até o fim da vida.